Por que Deus permite a ação dos demônios contra nós?

 

“Não nos esqueçamos de que as nossas tentações, provenientes de Satanás, fazem parte da permissão divina. De fato, o diabo não tenta os eleitos mais do que a vontade de Deus lhe permite, e Deus serve-se também do diabo – embora contra a vontade dele – para fazer-nos crescer no bem. Por outras palavras, Deus permite que o diabo nos tente para o mal; e este quereria que, realmente, cedêssemos ao pecado. Mas, ao resistirmos à tentação, tiramos dela – a despeito de Satanás – um beneficio espiritual.

Em vez de sermos motivo de queda no pecado, as tentações são sobretudo ocasiões de fortalecimento na virtude e de progresso espiritual. É verdade que não é o demônio que mete em nós os vícios, porque o pecado é sempre um ato livre da nossa vontade; mas ele atrai-nos para eles. De fato, o demônio insere-se nas nossas fraquezas e fomenta as nossas paixões, quando encontra o nosso ânimo já inclinado à concupiscência. Se, pelo contrario, desprezarmos decididamente as atrações do mal, ele ir-se-á embora confundido, porque as suas sugestões não tiveram êxito em nós. Por conseguinte, precisamos estar prontos para intuir imediatamente as insídias do inimigo e nos pormos em guarda, porque a inocência da vida requer simultaneamente simplicidade e prudência” ¹ (Mt 10,16).

Contra a própria vontade dos demônios, o que deveria prejudicar o homem transforma-se em vantagem. São João Crisóstomo diz que Deus deixou o demônio no mundo porque os seus ataques são para nós causa de mérito e objeto dos méritos. São Gregório Magno afirma “que os demônios agem dentro da permissão e do poder divinos. A vontade de Satanás é sempre má, mas não o seu poder, que lhe foi dado por Deus, enquanto a sua vontade é uma faculdade de que pode livremente dispor. Por isso, a sua ação nasce da sua maldade, mas é reintegrada no plano da justiça divina, como acontece claramente no livro de Job” ².

Pedro Abelardo afirma que “o diabo age dentro dos limites da permissão divina, mas move-se estimulado pela sua própria maldade. O seu poder de agir é bom e justo, porque lhe foi dado por Deus, mas a sua vontade é sempre injusta, porque deriva dele próprio. O pecado está no mau uso das faculdades que, de si mesmas, são boas” ³.

São Tomás de Aquino recorda-nos que a ação dos demônios pode atingir diretamente o corpo, mas só indiretamente (através de inspirações malignas ou tentações), o intelecto e a vontade. E aprofunda as suas modalidades. Esta explicação baseia-se na concepção clássica do mal como privação do bem, para mostrar que o terrível paradoxo do diabo consiste no fato de ele, rejeitar Deus, ter escolhido negar a si mesmo o seu próprio bem, tornando-se por isso um ser que tenta tragicamente definir-se sobre o não ser.

¹ A. CARPIN, Angeli e demoni nella sintesi patrística di Isidoro di Siviglia, pp. 119-120.

² R. LAVATORI, Il diavolo tra fede e ragione, p. 79.

³ Ibidem, p. 100.

Fonte: FRANCESCO BAMONTE, Os Anjos Rebeldes – O mistério do mal na experiência de um exorcista, Cap. V: Outras questões de demonologia, pp. 133-134