PANDEMIA, SAÚDE E LIBERDADE

Imagens: Jeferson Cardoso
Imagens: Jeferson Cardoso

A minha reflexão sobre o período que vivemos, como nação e como humanidade toda, parte de se questionar o que é mais importante entre saúde e liberdade.

Tenho ouvido essa pergunta repetidamente na mídia e em debates na televisão e pensei que parte da resposta deve ser encontrada no significado e nas características de ambos os valores.

Então, o que é saúde?

Muitas vezes, tenho visto passar o conceito de que a saúde é apenas a (pretensa) negatividade do COVID19. Como se a saúde pudesse ser condensada na mera capacidade de respirar; mas é realmente assim?

A saúde, ao invés, me parece um complexo de estados psico físicos que dizem respeito tanto ao corpo quanto à mente. Obviamente, uma pessoa pode pensar em ter perdido a saúde se se encontrar presa a um respirador em um quarto de hospital; mas também pode ser considerado saudável quem, embora seja capaz de respirar no máximo de suas capacidades, espontaneamente usa uma máscara cirúrgica enquanto viaja sozinho em seu carro, ou anda de bicicleta por uma estrada do campo.

São cenas do cotidiano, que se viam bem antes da obrigação legal de usar máscara em todos os lugares. Obrigação que aprendemos a respeitar sem quase nos perguntarmos o porquê.

Esperando que este período emergencial passe completamente, além disso, aprendemos a prorrogar os nossos testes de diagnóstico, adiar visitas a parentes, amigos e conhecidos, bem como a renunciar a momentos de convívio essenciais e “não essenciais“, que antes ocupavam uma boa parte do nosso tempo.

É útil para a resposta à pergunta acima, também se perguntar se a saúde é, por sua natureza, um valor que o estado pode garantir. Em última análise, resulta evidente que o estado pode garantir o tratamento, mas não pode garantir a saúde como tal. Objetivamente, o único que pode dar e tirar a saúde acaba sendo o Pai Eterno para aqueles que acreditam, e a deusa com os olhos vendados para todos os outros.

Ouço frequentemente os nossos líderes dizerem e se gabarem de que tudo está sendo feito para garantir a saúde pública. Com base nessa intenção, eles nos pedem, na verdade, nos obrigam, a renunciar à liberdade. Um valor que, ao invés sim, o Estado pode garantir ou do qual pode privar a cada indivíduo.

Ao menos a princípio, pegos de surpresa por tudo o que estava acontecendo, nos permitimos ser placidamente persuadidos a negociar a nossa liberdade por uma promessa de saúde.

Graças à cumplicidade da mídia dominante, estivemos como hibernando por um período, adormecidos na esperança de que tudo passe e se resolva da melhor maneira.

Há já algum tempo, porém, um número sempre crescente de pessoas começou a considerar que talvez a saúde, mesmo que hipoteticamente pudesse ser totalmente garantida, de nada serviria se não fosse acompanhada pela liberdade. As pessoas entenderam que nesse ritmo, mesmo imaginando um universo paralelo no qual o único problema de saúde seja esse coronavírus, haveria um grande risco de nos transformarmos todos em vegetais, capazes unicamente de engordar grandes multinacionais com um clique por vez.

Essa parte da população cresceu ainda mais quando passou a integrar todas aquelas pessoas que, da noite para o dia, se viram categorizadas como “não essenciais”, e viram a sua atividade de trabalho e a sua própria sobrevivência comprometida.

Tornou-se evidente, portanto, que este desejo tão criminalizado de convívio e agregação social fisicamente objetiva, não só é imprescindível para todo ser humano, que não pode renunciar a ele por mais de um breve espaço de tempo, mas é expressamente vital para toda uma parte da população, que baseia seu sustento econômico na interação social direta ou indireta.

A epidemia de coronavírus criou o surgimento de duas facções opostas na população: os defensores do fechamento total e aqueles que pedem para poder continuar trabalhando para continuar vivendo. Sim, porque a busca pela saúde a todo custo é falha por sua natureza, e faz com que o egoísmo de cada um seja posto em evidência. Entre aqueles que pedem para fechar tudo até que o vírus desapareça ou, pelo menos, até a difusão generalizada de uma vacina decisiva, tem, de fato, muitas vezes, aqueles que têm a oportunidade de trabalhar em casa ou que, de qualquer forma, sabem que recebem mensalmente um salário fixo assegurado (Governadores, Prefeitos, Deputados, Senadores, Vereadores, freelancers, etc.).

Na ilusão de que o sistema econômico de uma nação pode funcionar por muito tempo bloqueado e improdutivo, mas anestesiado por “auxílios” efêmeros e gorjetas, alguém pode se dar ao luxo de pensar que aqueles que não são tão afortunados de ter uma renda fixa devem ser pacientes e se contentar com estar, ao menos por enquanto, salvando a pele do famoso “inimigo invisível”.

Portanto, nestes tempos difíceis, acho que vendemos a liberdade por uma miragem de saúde. Liberdade que desfrutamos por muito tempo graças a alguém que lutou para conquistá-la em tempos em que havia menos saneamento e mais oração. Tempos em que a razão, não nublada por delírios de onipotência, reconhecia a própria vida como precária, não apenas a saúde, e os homens sabiam que os bens “essenciais” não são aqueles que se compram nos supermercados e nas farmácias. E aqueles homens deram a vida para conquistar e defender a liberdade que nós, hoje, tanto criminalizamos e até mesmo desprezamos.

Então eu me pergunto se, como um povo, simplesmente cedemos o lugar ao medo.

Talvez tenhamos esquecido que somos todos peregrinos nesta terra e que o caminho não pode nos preocupar mais do que o destino.

Eu me pergunto se agimos como aquele servo “perverso e preguiçoso” do Evangelho. Como administramos o que nos foi dado sob custódia? Houve cuidado em agradar o Mestre ou nos retiramos timidamente para a escuridão de nossa angústia?

Parece-me que trocamos a Fé pelo Ressuscitado pela esperança da vacina e nos deixamos vencer pelo medo e pela obsessão de nos preservar. Como o servo a quem foi confiado aquele talento, caímos na convicção equivocada de que devemos restituir exclusivamente o que recebemos, assim como o recebemos, e mais nada. E assim corremos o risco de perder a oportunidade de sermos tratados como amigos do mestre e de compartilharmos Sua alegria, como é para os servos fiéis.

Deixando-nos dominar pelas trepidações da carne, tornamo-nos escravos desta e perdemos a verdadeira liberdade, a pura, a essencial.

Por fim, gosto de pensar que as pessoas que morreram por causa do vírus, nos países que decidiram não implementar nenhuma medida para restringir a liberdade, são realmente heróis.

Hoje vários casos entre amigos e parentes nos ensinam que se pode perder a vida da noite para o dia, mesmo quando a saúde parecia ser uma constante. Portanto, morrer por causa de um vírus contraído para garantir a liberdade e dignidade do trabalho para todos os outros, me parece uma forma heroica de deixar este mundo.