O ALCANCE DA MORTIFICAÇÃO.

O ALCANCE DA MORTIFICAÇÃO

A mortificação ou ascese corporal busca uma profunda reorientação de todo nosso ser, ela deve atingir todas as esferas da natureza humana, corpo e espírito, sensibilidade e afetividade, apetites, desejos e aspirações, enfim todo o complexo psicossomático e espiritual que compõe cada pessoa. Trata-se de um trabalho preliminar, em que procura remover os obstáculos a uma vida na graça, sendo, porém, este mesmo trabalho fecundado pela graça.

Isto não quer dizer que se negligencie a mortificação ou ascese corporal, pois os esforços devem caminhar paralelamente nos dois sentidos, mas é preciso saber que a raiz da desorientação humana está na vontade, ou, como se diz, no coração, onde lutam entre si os interesses, desejos e intenções, alimentados pelas fantasias e devaneios da imaginação não disciplinada.

Não é uma atitude cristã desprezar a matéria e o corpo. Porém é impossível chegar à reorientação de nosso ser para Deus sem que se adquira um certo domínio sobre a esfera corpórea da natureza humana. Quando está sujeito a uma disciplina é como se tivéssemos a proteção de várias linhas de defesa, se cedemos em um ponto ainda estamos longe de ceder ao pecado.

Com perseverança e determinação pode-se e deve-se chegar ao autodomínio com relação ao corpo. São Paulo fala do corpo como o templo do Espirito Santo. O corpo casto de Maria mereceu acolher o Verbo Eterno. São exemplos eloquentes do que se pode ser nossa esfera corpórea quando, purificada do pecado, torna-se capaz de ser elevada pela graça, pois esta não santifica apenas o espirito, mas todo homem. O corpo também foi redimido por Cristo e, após a ressurreição, glorificado, gozará com a alma pois formam uma unidade, das alegrias da eterna união com Deus.

Após ver a mortificação na dimensão corporal, nos perguntamos: e a mortificação do espírito? Antes de tudo uma disciplina da vontade. São Bernardo, opõe à vontade própria à vontade comum. A vontade própria seria, aquela que se deixa orientar só por si mesma, sem referência a Deus que o criou e lhe concedeu a autonomia e liberdade, sem o que não seria o que é, a vontade comum por sua vez, é aquela que se busca livremente e num movimento de amor coincidi com o querer Divino, sendo fonte de intimidade e paz interior.

Para São Bernardo toda redenção do homem consiste nessa reorientação da vontade, motivada, aliás, pela graça que nos inclina a dizer sim a Deus no seu desígnio de amor e salvação. Mortificar à vontade é exatamente impedir que, vaidade, ambição, vontade de poder, inveja, ciúmes, orgulho, soberba e tudo que nos afasta de Deus, determinem a conduta nossa, rejeitando-as enquanto se procura retificar a intenção e volta-la para Deus. Enfim mortificação é também quando concedemos menos que gostaríamos, restringirmos, portanto, a restrição nos dará o autocontrole necessário para vencer situações de tentação.

Pe. Agostinho Maria, FMDJ.

Fonte: “ Nada antepor ao amor de Cristo (RB 4, 21); Uma apresentação atual dos valores da tradição monástica beneditina e cisterciense – Diretório espiritual dos monges e monjas da Ordem Cisterciense no Brasil. Edições: Lumen Christi, 2003 ; Editora MUSA.

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