HUMANI GENERIS

Papa Pio-XII

Carta encíclica de sua Santidade Pio XII

Em 12 de agosto de 1950, Pio XII promulgou a Humani Generis, uma encíclica “sobre algumas falsas opiniões que ameaçam subverter os fundamentos da doutrina católica“. Este é um documento muito atual, que fornece as coordenadas para uma relação correta entre fé e razão, e indica a tarefa dos filósofos e teólogos católicos diante do pensamento moderno.

Devido a um conceito errôneo de misericórdia, nos últimos tempos parece que a palavra “misericórdia” significa que tudo é permitido. “Proibido proibir, diziam os agitadores de 1968. É por isso que um documento promulgado há setenta anos pelo grande Pio XII nos faz pensar: Humani Generis (12 de agosto de 1950), “sobre opiniões falsas que ameaçam os fundamentos da doutrina católica”.

Abraão e o sacrificio de IsaacEsta encíclica, editada durante um Ano Santo, pode ser considerada um dos grandes documentos deste Pontífice, que nos deixou um tesouro magisterial verdadeiramente imponente.

Na introdução da Humani Generis, Pio XII explica que a razão humana pode racionalmente chegar a conceber a existência de Deus, mas adverte que erros de todos os tipos podem se insinuar na mente dos fiéis. Embora a Graça de Deus esteja sempre em ação, sempre somos vítimas do pecado original. O Papa Pio XII aborda imediatamente as questões importantes que ameaçam a doutrina católica, como o evolucionismo, o comunismo, o existencialismo, o historicismo e assim por diante.

Uma afirmação muito sábia do Pontífice é a seguinte: “Ora, estas tendências, que mais ou menos se desviam do bom caminho, não podem ser ignoradas pelos teólogos e filósofos católicos, que têm o grave encargo de defender e imprimir nas almas dos homens as verdades divinas e humanas, e, portanto não devem ignorar nem desatender essas opiniões que, mais ou menos, se apartam do reto caminho. Pelo contrário, é necessário que as conheçam bem; pois não se podem curar as enfermidades antes de serem bem conhecidas; ademais, nas mesmas falsas afirmações se oculta por vezes um pouco de verdade; e, por fim, essas opiniões falsas incitam a mente a investigar e ponderar com maior diligência algumas verdades filosóficas ou teológicas”.

Pio XII nos convida, portanto, a conhecer essas opiniões, esses desvios, porque só conhecendo-os bem poderemos enfrentá-los. Mas o Papa também apresenta um problema que decorre da declaração acima mencionada; isto é, o fato de que muitos estudiosos não abordaram esses desvios com o espírito que ele sugeria, mas quase os casaram, substituindo-os por aqueles preceitos e fundamentos da doutrina cristã que até então sempre se acreditou como certos e imutáveis.

Na primeira parte da encíclica, Pio XII aborda a questão do dogma e sua degradação por aqueles que consideram o dogma um obstáculo ao diálogo ecumênico. Tudo isso me faz pensar pessoalmente na batalha de Monsenhor Antonio Livi, que despendeu muitos estudos sobre a questão do retorno ao dogma até o fim de sua vida. Certamente, nos tempos modernos, testemunhamos uma preeminência da pastoral sobre o dogma, o que levou à confusão atual que é experimentada em todas as disciplinas teológicas.

Sagrada EscrituraNa segunda parte, o Papa aborda os ataques às Sagradas Escrituras, sobre a forma de interpretá-las segundo o pensamento da Igreja. Ele também destaca erros que distorcem a doutrina: “Alguns também põem em discussão se os anjos são pessoas; e se a matéria difere essencialmente do espírito. Outros desvirtuam o conceito de gratuidade da ordem sobrenatural, sustentando que Deus não pode criar seres inteligentes sem ordená-los e chamá-los à visão beatífica. E não só isso, mas, ainda, passando por cima das definições do concílio de Trento, destrói-se o conceito de pecado original juntamente com o de pecado em geral, como ofensa a Deus, e também o da satisfação que Cristo ofereceu por nós. Nem faltam os que defendem que a doutrina da transubstanciação, baseada como está num conceito filosófico já antiquado de substância, deve ser corrigida; de maneira que a presença real de Cristo na santíssima eucaristia se reduza a um simbolismo, no qual as espécies consagradas não são mais do que sinais externos da presença espiritual de Cristo e de sua união íntima com os féis, membros seus no corpo místico”.

Na terceira parte, ele aborda o problema dos desvios relativos à mente humana, a razão. Segundo alguns, deve ser completamente independente da fé, pois é irreconciliável com ela. O Papa mostra que não pode ser assim, pois o próprio Deus é o criador do intelecto humano. Pio XII demonstra que um racionalismo concebido desta forma só pode levar a um beco sem saída. Esta é a questão da filosofia, de quão importante é – como diz o Pontífice – que os sacerdotes sejam educados naquela filosofia que se baseia em certos fundamentos, antes de poderem chegar às alturas da teologia.

Na quarta parte trata da relação que existe entre a Igreja e as ciências. Na verdade, como o próprio Pio XII afirmou repetidamente, a ciência nasceu dentro da Igreja e deve muito a ela. Trata-se da questão do evolucionismo: o Papa não rejeita essa teoria, mas nos convida a tratá-la, de fato, como uma teoria, isto é, algo que pode ser discutido e não como um dogma indiscutível.

Na quinta parte o Papa fala sobre a interpretação dos livros históricos do Antigo Testamento, em particular dos contos da criação, tentando dissipar uma certa desvalorização da mesma à luz, como já dissemos, de um aparente contraste com o que foram as últimas descobertas. científicas.

Vaticano e São PedroNa conclusão lemos uma afirmação ainda muito importante do Pontífice, a respeito dos professores dos institutos eclesiásticos: “Esforcem-se com todo o alento e emulação por fazer avançar as ciências que professam; mas, evitem também ultrapassar os limites por nós estabelecidos para salvaguardar a verdade da fé e da doutrina católica. Às novas questões que a moderna cultura e o progresso do tempo suscitaram, apliquem sua mais diligente investigação, entretanto, com a conveniente prudência e cautela; e, finalmente, não creiam, cedendo a um falso “irenismo”, a que os dissidentes e os que estão no erro possam ser atraídos com pleno êxito, a não ser que a verdade íntegra que está viva na Igreja seja ensinada por todos sinceramente, sem corrupção nem diminuição alguma”.

A Humani Generis é um documento importante e atual. Um documento que nos ensina que o erro deve ser olhado, enfrentado, refutado, nunca aceito com brandura. O erro não tem direitos, apenas a verdade os tem. Infelizmente, nas últimas décadas, pensou-se que andar de mãos dadas com o erro faria com que os errantes voltassem ao redil, mas ninguém pode pensar em retornar ao redil a menos que lhes seja mostrado que a razão para se manter longe dele foi baseada em bases falsas.